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12/11/2013 às 18:03:52

Histórias da Tradição

PROJETO REGISTRA E DIVULGA HISTÓRIAS DOS POVOS XAVANTE E KARAJÁ

Para que as narrativas tradicionais não desapareçam com os anciãos, Histórias da Tradição cria um acervo de histórias em áudio e vídeo na língua indígena original e publica dois livros ilustrados pelas próprias comunidades

 

 

 

“Viemos de dentro do rio, do mundo abissal. Nossos ancestrais, curiosos com o mundo desconhecido que havia além de um orifício na superfície da água, atravessaram para este mundo e ficaram vivendo às margens do Rio Araguaia. Nosso ancestral Koboi e seu povo
 ainda vivem nas profundezas do rio e é para eles que realizamos as cerimônias.”

(Povo Karajá)

“Nós viemos de lá, de onde o sol nasce, da raiz do céu. Somos de uma linhagem
 antiga. Aprendemos com nossos ancestrais os fundamentos da tradição.
 Mantemos vivo o Espírito da Criação.”

(Povo Xavante)

 

 

Estes são trechos de narrativas dos povos Karajá e Xavante que vêm sendo transmitidas pelos seus anciãos de geração a geração e correm o risco de desaparecer, como outras tantas histórias indígenas, incapazes de sobreviver aos apelos da televisão, do rádio e das novas tecnologias – e vítimas também das mudanças no convívio familiar e da própria resistência dos índios mais jovens em seguir suas tradições.

É para evitar que esse patrimônio se perca e para valorizar o papel dos grandes narradores que surgiu o projeto Histórias da Tradição, que se realiza com o patrocínio da Petrobras. Uma demanda dessas comunidades que estão conscientes dos riscos que correm e pretendem documentar, preservar e divulgar um Brasil que o próprio Brasil desconhece.

Em andamento desde o mês de agosto, o projeto tem como primeiros parceiros o povo Karajá, da aldeia Fontoura, na Ilha do Bananal/TO e o povo Xavante, da aldeia Etenhiritipá, Terra Indígena Pimentel Barbosa/MT.

 

No mês de setembro a coordenadora do projeto, Angela Pappiani,  a historiadora indígena Maíra Lacerda e o engenheiro de som Evandro Lopes estiveram nas aldeias parceiras para uma primeira etapa de trabalho de campo com a capacitação das comunidades no registro da história oral e planejamento das próximas fases de trabalho.

 

Mesmo com a motivação de saber da importância do projeto e da vontade das comunidades de documentar e preservar sua cultura para as futuras gerações, a emoção tomou conta da equipe em muitos momentos do trabalho. Só mesmo vendo o brilho nos olhos e a alegria dos velhos em ter seu conhecimento e sabedoria reconhecidos e valorizados, as sessões de gravação das narrativas com as famílias cercando os narradores, as crianças com toda a atenção nas histórias! As mulheres mais idosas da aldeia Xavante deixando suas casas para participarem ativamente das atividades do projeto no espaço da escola, junto com seus netos e bisnetos!

Aos poucos as comunidades foram se apropriando da proposta, refletindo sobre os objetivos e os rumos do projeto, alterando a programação, selecionando as equipes, incluindo questões não previstas. Cada aldeia imprimiu sua identidade ao projeto, criou caminhos próprios a serem percorridos

Em outubro uma equipe maior da Ikore fez mais duas viagens às aldeias parceiras, dando continuidade ao trabalho iniciado em setembro. Angela Pappiani, o fotógrafo Helio Nobre, o documentarista Diego Gozze  e a assistente de produção Livia Moreti percorreram de carro mais de 4 mil km de estradas, entre São Paulo, Tocantins e Mato Grosso.

 

O resultado o público pode acompanhar desde agora na página do projeto no facebook e a partir de janeiro no web site historiasdatradicao.org e em maio no lançamento dos livros onde serão publicadas algumas das histórias narradas pelos Karajá da aldeia indígena Fontoura e pelo povo Xavante da aldeia Etenhiritipá, do Mato Grosso.

Escritos em português, eles são ilustrados por jovens das próprias aldeias. Cada volume será acompanhado de um CD com o áudio da versão original das histórias, na língua indígena correspondente, e da interpretação em português feita por atores, com trilha sonora e efeitos especiais. É uma oportunidade de aproximar adultos e crianças de núcleos urbanos da tradição oral dos povos indígenas, oferecendo a eles um mundo mágico de mitos e histórias fantásticas.

Boa parte dos livros será distribuída gratuitamente a escolas das etnias Xavante e Karajá, a bibliotecas públicas dos municípios de Canarana e São Felix do Araguaia, onde estão localizadas as aldeias, e às Secretarias de Educação de Palmas e Cuiabá.

Mas esta é apenas parte do trabalho desenvolvido por profissionais de áreas da história oral, jornalistas, produtores culturais e estudiosos da tradição indígena. O projeto envolveu a capacitação dos jovens das aldeias para ajudar a registrar as narrativas em áudio e vídeo, transcrever no idioma original e traduzir para o português. Desta forma, eles podem dar continuidade ao processo de preservação de suas culturas, sendo eles próprios autores e multiplicadores de suas histórias.

 

O acervo em áudio, vídeo, fotografias e textos será disponibilizado no site www.historiasdatradicao.org  e ficará aberto à consulta a partir de fevereiro de 2014.

 

Patrimônio imaterial

 

As histórias, os mitos e as narrativas dos indígenas trazem em si os fundamentos de suas tradições. O valor e a importância desse patrimônio são incalculáveis. Infelizmente, há um grande abismo entre esses povos e o restante da população brasileira, que desconhece a riqueza de idiomas e a diversidade cultural. Só para se ter ideia, convivem no país mais de 250 etnias e muitas de suas línguas correm o risco de desaparecer. Segundo a Unesco, cerca de 80 idiomas correm perigo de extinção. A iniciativa do projeto Histórias da Tradição não só oferece uma contribuição contra esse cenário desalentador ao documentar as narrativas na língua original dos povos Xavante e Karajá, como dá a possibilidade de crianças, jovens e adultos de todo o Brasil conhecerem um pouco mais de sua realidade contemporânea. Como diz um velho sábio do povo xavante: “Ninguém respeita aquilo que não conhece”.

 

“As narrativas são como as curvas do rio, buscando caminhos pela floresta, mudando a cada temporada de chuva o seu trajeto. Elas compreendem tudo, explicam tudo, revelam a essência do povo, sua trajetória no mundo, sua história, seu meio ambiente, seus sonhos e medos. São ciência e conhecimento, magia e conexão espiritual. Mas essa magia está se perdendo. As noites nas aldeias já são iluminadas pelas telas da televisão, os rádios tocam sons em línguas estranhas e os velhos já não têm a atenção de seus netos como no passado”, conta Angela Pappiani, coordenadora do projeto. Além dela, fazem parte do projeto a historiadora Maíra Lacerda Krenak, a cientista social Inimá Lacerda Krenak, os coordenadores Karajá Daniel Coxini e Elyy Mairu, os coordenadores Xavante Paulo Francisco Supretaprã e Caii Waiassé, o engenheiro de som Evandro José Lopes e a contadora de histórias Cristiana Ceschi.

 

Parte da equipe do Histórias da Tradição trabalhou com o povo Xavante na criação do livro Wamrêmé Za’ra – Nossa Palavra, Mito e História do Povo Xavante (1998), e com os Karajás na produção do CD Iny – Cantos da Tradição Karajá (2005), entre outros projetos de documentários, exposições e apresentações.

 

Sobre a equipe

 

Angela Maria Pappiani: Jornalista, escritora e produtora cultural, trabalha há mais de 25 anos com povos indígenas desenvolvendo projetos culturais que valorizam, afirmam e divulgam a tradição e o pensamento indígena. Em sua trajetória estão parcerias e convivência com mais de 40 etnias, de todas as regiões do Brasil, além de tribos das Américas, Noruega, Japão, Nova Zelândia e África do Sul. Coordenou os projetos culturais do Núcleo de Cultura Indígena de 1985 a 1999, período em que também realizou a produção dos CDs Etenhiritipá – Cantos da Tradição Xavante e Cantos da Montanha, gravados dentro das aldeias. Organizou e produziu os textos do livro Wamrêmé Za´ra – Nossa Palavra, Mito e História do Povo Xavante (Ed. Senac-SP, 1998). Foi curadora das exposições Sentinela Yanomami, Tradição e Tecnologia, A Trama Kaxinawá e A Terra é Azul e dirigiu o Programa de Índio na rádio. De 2000 a 2009, foi coordenadora cultural do Instituto das Tradições Indígenas (Ideti), pelo qual produziu outros dois CDs: Iny – Cantos da Tradição Karajá e Ritos de Passagem. Publicou os livros Povo Verdadeiro (com apoio da Secretaria de Estado da Cultura ProAC) e Entre dois Mundos (ed. Nova Alexandria). Em 2010, como criadora e diretora do projeto Aldeias Sonoras, realizado pela Ikore, foi ganhadora do Prêmio Roquette-Pinto. 

 

Maíra P. Lacerda: Historiadora formada pela USP, é da etnia krenak e há mais de 10 anos trabalha com projetos culturais e educacionais relacionados à cultura indígena em organizações como o Núcleo de Cultura Indígena e o Instituto das Tradições Indígenas (Ideti), onde produziu o projeto Rito de Passagem e coordenou o Centro de Educação e Cultura Indígena – CECI.

 

Daniel Coxini:  Da etnia karajá, nasceu e vive na aldeia Fontoura, na Ilha do Bananal (TO). Foi cacique e desenvolveu inúmeros projetos ligados à cultura, saúde e educação, promovendo o bem-estar de sua comunidade. Participou do projeto Rito de Passagem, cursou o 3o. Grau Indígena e hoje é mestre de sua cultura.

 

Paulo Francisco Supretaprã: Da etnia xavante, nasceu na aldeia Pimentel Barbosa (MT). Estudou por alguns anos na cidade de Ribeirão Preto, onde aprendeu a falar português. Desde muito jovem acompanhou os líderes dessa aldeia, servindo como intérprete e colaborando nas negociações políticas. Foi parceiro do Núcleo de Cultura Indígena na produção do CD Etenhiritipá – Cantos da Tradição Xavante e na tradução para o livro Wamrêmé Za’ra – Nossa Palavra, Mito e História do Povo Xavante (Senac-SP, 1998). Também foi parceiro do Ideti no documentário Estratégia Xavante e no projeto Rito de Passagem. É coordenador cultural da aldeia Etenhiritipá, que ele criou em 2006.

 

Evandro José Lopes: Engenheiro de som, tem em seus trabalhos a gravação, mixagem e masterização de CDs de Milton Nascimento, Marcus Viana, Sepultura com participação dos índios xavantes, Etenhiritipá – Cantos da Tradição Xavante, Cantos da Montanha, Iny – Cantos da Tradição Karajá e projeto Ritos de Passagem

 

Cristiana Ceschi: Atriz e contadora de histórias. Atuou com os grupos Trupe do Griot, Pia Fraus e Parlapatões, Casulo, Panóptico, entre outros. Hoje, trabalha com o grupo Pé de Maravilha sob a direção de Regina Machado e integra o Coletivo As Rutes.

 

 


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