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28/06/2012 às 13:54:28

Revista Novos Olhares e Programa de Indio

A iniciativa pioneira e inovadora que criou e manteve vivo o projeto Programa de Indio, hoje com desdobramentos no programa de rádio Aldeias Sonoras, é objeto do artigo  "Programa de Índio - criando uma ponte sonora entre as culturas"  escrito por Angela Pappiani e publicado na Revista Novos Olhares, sob coordenação dos professores Eduardo Vicente e Wilson de Souza, da ECA/USP.

Este trabalho foi realizado dentro do curso de pós graduação ministrado por Eduardo Vicente na Escola de Comunicações e Artes da USP  e é uma reflexão sobre a experiência vivida com a construção do Programa de Índio, o primeiro programa de rádio indígena no Brasil.
 
O texto pode ser acessado pelo link:
 


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01/06/2012 às 09:29:31

Na aldeia dos Mehinako

 
Capitulo 4
Fotos de Helio Nobre
 
Algumas crianças brincam de subir num tronco de árvore debruçado sobre o rio e saltar, fazendo voltas no ar, caindo de formas diferentes na água. Estávamos em Uiaipiuku, a aldeia Mehinako.
 
Em pouco tempo chegam homens em suas motos e bicicletas para nos receber. Mais um momento de encontro e alegria. Rapidinho toda a bagagem está acomodada e nós também seguimos, pela trilha no cerrado. Na garupa das motos. Há 4 anos atrás o único jeito de vencer esse trecho era a pé ou de bicicleta. Cerca de 20 minutos caminhando. No tempo da chuva, como agora, por dentro d’água em alguns trechos alagados de cerrado.
 
Chegar nessa aldeia é como voltar no tempo, ou sair da realidade que conhecemos. As casas de sapé e madeira, completam um círculo, em torno do grande pátio. Magnificas, esculturas perfeitas, impõem respeito. Como se entrássemos num templo, a grandiosidade e beleza dessas casas nos calam. 
 
A aldeia está em silêncio, quase deserta. A doença de Aiuruá, o filho do chefe, trouxe tristeza e recolhimento às cerca de 150 pessoas que vivem ali, em oito casas.
 
Somos recebidos pelas irmãs de Carlinho e Maiokute, na grande casa que já foi a moradia de Kutapiene. Kamarru, filha de Takulalo nos recebe junto com  Marcelo, seu esposo. Na casa ainda moram a filha casada e os  outros filhos solteiros e netos. Kaiti e Kamiru, também irmãs, moram em outras casas, próximas, mas se juntam para nos dar as boas vindas e cuidar de nossa estadia.
 
As redes são armadas, numa das pontas da casa, nossa bagagem é acomodada numa grande mesa e nos servem peixe com beju. Um tucunaré pescado a pouco e um beju quentinho, saído da bejuzeira, com cheirinho de mandioca. Uma refeição deliciosa, saudável, feita com os recursos naturais desse lugar. Para temperar o peixe, servem o sal tradicional dos Mehinako, produzido a partir do aguapé, num processo longo,  cheio de etapas complexas. Alta tecnologia tradicional. O sal vem misturado com pimenta vermelha, dando um sabor especial ao peixe. 
 
As pessoas são calorosas, se alegram com a visita. Querem saber das novidades, falam dos acontecimentos, sentem saudades das viagens que faziam comigo para apresentações de canto e dança no projeto Rito de Passagem. E foram muitas viagens e aventuras! Também sinto saudades.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ao lado das inovações que chegaram à aldeia nos últimos anos como a motocicleta e o laptop, a vida segue seu ritmo, como há milhares de anos: as mulheres descascam e ralam quilos e quilos de mandioca, para providenciar o beju de cada dia, preparam corda com a fibra do buriti para tecer redes, arrumam os espinhos de buriti para tecer com linhas coloridas e algodão as esteiras que usam para espremer a mandioca, moldam com habilidade panelas e objetos em argila que depois secam ao sol, lixam, queimam e pintam...Os homens pescam tucunarés, matrinchãs e outros peixes nas lagoas de seu território, cuidam da construção e manutenção das casas, trabalham com os projetos de saúde , educação e do mel, fazem objetos em madeira como pás de beju, bancos, gamelas. Alguns para uso próprio, outros para vender e conseguir algum dinheiro.
 
 
 
  
 
 
Arako,  outro querido amigo que esperávamos encontrar ali,  estava  fora, de visita à aldeia Yawalapiti, no rio Kuluene, onde acontece em agosto o Kuarup de seu pai, que faleceu no ano passado. O pai era Yawalapiti mas vivia ali, com a esposa Mehinako. Os casamentos interculturais são muito comuns no Alto Xingu. Depois do contato com os brancos, na década de 40, muitas etnias quase foram extintas por doenças e conflitos. Os casamentos foram a solução para a sobrevivência desses povos. Entre os Mehinako, muitas mulheres são da etnia Waurá, excelentes ceramistas que trouxeram essa arte para a aldeia.
 
 
 
 
Kaiti herdou a habilidade para a cerâmica de sua mãe, Takulalo, também Waurá. Quando chegamos começava a preparar algumas peças que acompanhamos a cada fase.  Onça, pacu, panelinhas... eram presentes para nós, os visitantes, e também para vender. É claro que compramos todas para trazer para São Paulo.
 
Os projetos implantado há alguns anos como a escola, o posto de saúde e a produção de  mel continuam. Com ganhos e perdas mas contribuindo de alguma forma para que a comunidade consiga encontrar caminhos e alternativas num tempo de tantas mudanças e pressões. 
 
   
 
 
Dentro de alguns dias o novo prédio do posto de saúde seria inaugurado. Feita em alvenaria, muito próximo à aldeia, a casa com arquitetura padrão da nossa sociedade, apesar da importância, é um objeto estanho,  agredindo a paisagem. Uma arquitetura totalmente fora da realidade local,  um ruído que poderia ser evitado se houvesse mais sabedoria e sensibilidade nos arquitetos  que projetam obras dentro das aldeias. Além do custo extraordinário que significa o transporte de material de construção para um lugar tão distante, ainda há a questão da permanência de trabalhadores no local por um longo tempo. 
 
Mas são muitos os descompassos entre o tempo e a realidade das aldeias e os projetos implantados de fora. A escola é outro ponto delicado. A começar do currículo e material didático que recebem, totalmente desconectados  da realidade da comunidade. Os professores indígenas, apesar da boa vontade e do conhecimento da sua própria cultura, não estão preparados para administrar esse conhecimento, que não dominam. Marcelo, um dos professores, nos mostra uma caixa com jogos que receberam da secretaria de educação e nos pede ajuda para decifrar o conteúdo. Tentamos ajudar com as regras e material que compõem jogos com fixas, dados e tabuleiros. Mas o formato dos jogos e o conteúdo não tinham nenhum apelo para aquele povo...  
 
Além dos problemas e dos desafios para o futuro dessa comunidade, a vida tradicional segue...
 
Toda tarde os jovens lutadores de huka huka se juntam no centro da aldeia para o treino, se preparando para o kuarup de agosto. Maiokute transportava de uma distância de 8km troncos pesados de mais de 10 m de comprimento, com sua moto. Ele constrói uma nova casa tradicional, em madeira e sapé, arejada, fresca, confortável, reafirmando o conhecimento tradicional e a sabedoria de seu povo. 
 
  
 
Apesar de termos vivido intensamente os três dias que ali ficamos, saboreando o tempo de uma forma muito diferente da correria da cidade, chegou a hora da despedida. Numa manhã de muito sol, desarmamos as redes, juntamos a bagagem, os presentes, as compras e fizemos o trecho até o rio a pé, vivenciando o caminho de volta. Kaiti nos acompanhou até o barco. Marcelo e Maiokute levaram parte da bagagem na moto. Na beira do rio, as crianças fizeram festa e nos despedimos desse povo lindo, desse lugar encantado, começando a longa viagem de volta. Dali a São Paulo, seriam 2 dias de viagem.
 
 
Foram três dias de conversas, boa comida, aprendizado, muita beleza e sentimentos a flor da pele.  Céu estrelado, noites claras de lua, natureza. E a certeza do valor incalculável daquele lugar e cultura.
 
Os Mehinako, assim como os Xavante e centenas de etnias que convivem hoje com o Brasil, preservaram a floresta, o cerrado, a biodiversidade, a espiritualidade, tecnologias sustentáveis, modos de vida em harmonia com o planeta. Valores que nós, que vivemos na cidade, não conseguimos perceber e valorizar. Enquanto isso, são esquecidos, além da margem da sociedade nacional, tendo seus direitos básicos negados, seus territórios invadidos,  explorados, contaminados. Sofrem as consequências da diminuição da fauna, das mudanças no regime das chuvas, das alterações nos cursos dos rios provocadas pelas barragens e hidrelétricas que se multiplicam, das informações que chegam pela televisão e computadores valorizando um modo de vida consumista e desconectado da natureza.
 
Grandes desafios para todos. Para as aldeias, para as novas gerações que nascem lá e aqui. 
 

 


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