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28/05/2012 às 14:16:48

A caminho do Xingu

Capítulo 3
 
Fotos de Helio Nobre 
 
Chegamos a Canarana no meio do dia e aguardamos o ônibus para Gaúcha do Norte que saía às 16hs. Assim começa a segunda etapa da viagem: com a alegria do reencontro com os amigos e com a beleza das noites estreladas guardada na memória, com a coceira horrível das picadas de mosquito, uma mistura de vontade de ficar mais um pouco com os Xavante e ansiedade com a nova aventura que nos aguarda.
 
Na rodoviária encontramos Uruhu, jovem artista do povo Mehinako carregando bancos de madeira, cerâmicas, esculturas... uma grande produção que vai levar para vender em São Paulo. Uma operação logística das mais complicadas que ele resolve sozinho. Ele segue para São Paulo e nós, no caminho contrário, para a aldeia.
 
A estrada para Gaúcha continua péssima. A temporada de chuva ainda não acabou e a lama e os buracos tornam a viagem longa e cansativa.  São 5 horas de viagem num ônibus nada confortável. Faz frio no centro-oeste. A noite está gelada....
 
A parada final do único ônibus que liga a cidade a Canarana é num posto de gasolina. Carlinho Mehinako não estava nos esperando e nenhum de nossos celulares funciona. Tem uma única empresa que opera ali, e de forma precária. E o único meio de comunicação entre as pessoas é o celular, o que há alguns anos atrás nem era possível.
 
  
 
O hotel Santa Catarina fica a um quarteirão e meio dali, está em reforma, com quartos novos sendo construídos. Os que existem são muito precários. Conseguimos avisar pelo celular do dono do hotel e nosso amigo Carlinho  vai nos encontrar com toda a família. 
 
A alegria do reencontro é muito grande!!!! Ele é um amigo querido e grande parceiro em muitos anos de trabalho cultural dentro do projeto Rito de Passagem. Não nos víamos desde 2007, quando viajamos juntos paro Rito de Passagem em Fortaleza, Crato e Juazeiro do Norte . 
 
Carlinho Ciucate é vereador em Gaúcha do Norte e vive ali com a família há um ano. Antes se dividia entre a aldeia e a cidade, uma distância longa,  cansativa e muito cara para fazer com frequência. São quase 4 horas de barco com a gasolina a mais de R$ 3,50 o litro. 
 
As crianças se adaptaram com facilidade, já dominam o português, frequentam a escola, se relacionam com os novos amigos gaúchos. Ele tem se empenhado na melhoria das condições de vida da população indígena do município em torno de 4 mil pessoas, 50 % da população total da cidade, mas até recentemente sem nenhuma representação política, sem garantias de direitos básicos como saúde e educação diferenciadas.
 
Não é uma batalha fácil e, apesar da negação de Carlinho, o que presenciamos foi ainda muito preconceito e desrespeito da população sulista que ocupou a região, em relação aos índios. E quase que nenhuma consciência sobre a grande perda que significa para todos a destruição da floresta e a ocupação da região com monoculturas que contaminam a todos com agrotóxicos e fertilizantes. poluem o rio, alteram o regime de chuvas, degradam o solo. Essa produção, em sua maioria de soja, perpetua o papel do país como produtor primário, degenerando seu patrimônio ambiental e cultural para a produção de ração animal de países como a China. Mas isto é conversa séria, para outro momento...
 
Depois de uma noite muito mal dormida, nos empenhamos para encontrar um frete que nos levasse até o porto no rio Curusevo onde um barco da aldeia iria nos buscar. Um trajeto de cerca de 40 km, mas em péssimas condições. Conseguimos um Fiat Uno para levar nós quatro– Angela, Helio, Carlinho e Eliza - e mais o motorista, bagagem de todos, as compras de supermercado, equipamento de áudio e fotografia e ainda 100 litros de gasolina!!!!! Inacreditável como coube tudo naquele carrinho que ainda enfrentou 1 hora de estrada enlameada, quase atolando.
 
De repente, no final do caminho, depois de uma curva à esquerda...lá está o rio. Tão bonito, correndo suas águas em direção ao Xingu. Como as chuvas continuam, em pleno mês de maio, o rio está bem cheio, o que facilita a navegação.  Dentro de alguns minutos estaríamos entrando no Parque Indígena do Xingu.
 
  
 
Maiokute e sua filhinha Dominique vieram nos buscar! Maiokute é irmão de Carlinho e filho do chefe que já mudou de nome novamente, agora é Ui – cobra em Mehinako. Quando o conheci, há uns 15 anos atrás, era Yamuin, depois trocou para Kutapiene. Cada vez que dá seu nome para um neto, ele muda o seu. Nos documentos está registrado como Zacarias. Ele e Takulalo, a matriarca da família, estão na cidade de Canarana acompanhando a recuperação do filho mais novo que sofreu uma cirurgia muito séria e quase morreu. O jovem é campeão de huka huka, o orgulho da aldeia e se prepara para assumir a chefia. Felizmente os momentos piores passaram e ele se recupera. A previsão de volta para  aldeia é somente em outubro. Uma grande provação para toda a família.
 
 
 
Mas o dia estava lindo, com sol e céu azul, depois de uma noite gelada! Entramos no barco com dificuldade para atravessar o lamaçal da margem do rio com bagagem e equipamento e começamos a descida do Curusevo.
 
As praias estão sumidas, assim como os troncos de árvores caídas no meio do rio o que dificulta a vida de jabutis, tracajás, jacarés para tomar sol. As famílias de capivara não se perturbam com a quantidade de água e estão em muitas curvas do rio. Revoadas de pássaros acompanham o barco. O barulho do motor é ensurdecedor! Depois de quase 4 horas com esse ruído constante no ouvido a gente fica zonzo e surdo!  O vento frio que bate com a velocidade do barco disfarça o sol e o resultado é pernas e ombros queimados, apesar de todo protetor solar. Para minha boa surpresa não havia tantos mosquitos no trajeto. 
 
  
 
Impossível conversar no caminho. Mudar de posição também não é tarefa fácil. Nos resta aproveitar cada minuto da viagem, cada mudança de paisagem, cada curva de rio. Nesse trecho do Parque Indígena do Xingu a vegetação vai do cerrado à floresta, em todas as suas variações. Uma riqueza de paisagens e biodiversidade incalculável.
 
Paramos por alguns minutos na aldeia Aweti, na margem direita do rio, onde mora a família da esposa de Maiokute. O chefe da aldeia conhecido como Federal nos recebe com alegria e comenta que eu estava sumida! Maiokute entrega um tracajá que flechou no caminho de ida e a filha que vai ficar ali com a mãe e avós.
 
Seguimos viagem e quando o sol já começa a sua descida, depois de estar a pino, chegamos no porto do rio, próximo à aldeia.
 
 


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25/05/2012 às 10:42:51

Dias em Etenhiritipá

Capitulo 2

(fotos Helio Nobre)

Os 50 km que separam a estrada BR 150 da aldeia de Etenhiritipá são os mais bonitos e emocionantes. O cerrado ali, dentro da Terra Indígena Pimentel Barbosa, está vivo, pulsando, em pleno fluxo de energia com o povo Xavante que ali vive ha milhares de anos. As árvores frutíferas, os tubérculos nativos, as flores, pássaros, animais de grande porte, a água que brota e forma os córregos e lagos que vão alimentar o Rio das Mortes. A natureza está em equilíbrio. A convivência dos Xavante com a terra e o céu está em equilíbrio.

 

 

Chegar nessa aldeia é sempre um momento de emoção e muita alegria. Ali estão amigos queridos com quem convivo há quase 30 anos. Os jovens que hoje estão no Warã, círculo dos homens, eu vi nascer. Os adultos que conheci jovens são avós e bisavós e alguns dos anciãos ainda estão firmes, acompanhando a formação da nova geração, mesmo que apoiados em suas bengalas. Os que partiram devem continuar por perto, de alguma forma, ajudando a proteger o destino de seu povo, cada vez mais ameaçado.

   

Muitas novidades chegaram à aldeia nestes últimos anos: as motos, a energia elétrica e com ela as televisões, computadores, geladeiras. Mas as casas de palha e madeira ainda conservam seu frescor, a luz elétrica não ofusca o céu, as torneiras que trazem água próximo às casas não interfere no banho no rio, no espaço de convivência das mulheres e crianças.

Mesmo os celulares usados dentro da aldeia para ouvir música, tocam preferencialmente música Xavante, a tradicional que alegra a aldeia nos fins de dia e nas cerimônias e a nova música Xavante dos grupos que ficam famosos pelas aldeias e gravam CDs com instrumentos e novas temáticas nas letras, cantadas no idioma materno.

Armamos nossas redes no espaço da escola, um grande rancho coberto de palha de babaçu, sem paredes, de onde podíamos apreciar toda a beleza do céu. Nesse lugar, professores Xavante passam para seus alunos noções do português, alfabetizam as crianças no idioma Xavante e lidam com muita dificuldade com o material distribuído pela Secretaria de Educação. Os livros de história, geografia e matemática se deterioram, empilhados num canto da maloca onde é feita a merenda dos alunos.

 

Outra mudança que percebi com certa tristeza foi na moda feminina dentro da aldeia. Desde o tempo do contato, no final de década de 40, os Xavante, como todos os outros povos, foram introduzidos no mundo da roupa que se usa na cidade. As mulheres adotaram um modelo de vestido bem recatado, com manga curta, decote canoa e saia um pouco franzida. Algumas aprenderam a costurar e a aldeia ficava colorida com os vestidinhos florais... Agora abandonaram os vestidos e passaram a usar camisetas com saias. As camisetas coloridas com mensagens em inglês e desenhos “modernos” , ou velhas camisetas de campanhas políticas formam um estranho conjunto com as saias estampadas de tecidos sintéticos que compram em Canarana por R$ 15,00.

  

 

Nas cerimônias continuam pintando o corpo de carvão e urucum, usando colares e pulseiras de algodão e seda de buriti. Os calções vermelhos e pretos e os sutians completam o figurino especial de festa.

O povo Xavante começa um novo tempo de relacionamento com os políticos da região, buscando melhorias para as aldeias. Acreditam que estão sendo respeitados e se aventuram nas próximas eleições, escolhendo alguém para concorrer a vereador no município de Canarana.

Há 20 anos atrás um outro movimento aproximou o povo Xavante da população de Nova Xavantina, onde funcionou o escritório da Associação dos Xavante de Pimentel Barbosa e um Centro Cultural onde foram realizadas exposições fotográficas, performances e recepções com comes e bebes preparados com produtos do cerrado que os “warazu” (os estrangeiros, os brancos) nem faziam ideia que existissem.  

Os dias na aldeia são longos. Parece que o tempo se expande e damos conta de fazer tudo o que queremos. Antes do sol nascer os homens já estão no Warã para discutir os assuntos do dia, as mulheres acendem o fogo, vão para o primeiro banho no rio, o barulho começa a tomar conta do silêncio. As horas quentes do dia são suficientes para as conversas, para acompanhar as mulheres fazendo cestos maravilhosos com as folhas do buriti, as esteiras trançadas com a palha seca, para brincar com as crianças no rio, para assistir às partidas de futebol masculino e feminino. Quando a noite chega há o novo tempo das discussões no Warã e para os cantos que juntam na roda os jovens e as crianças, mulheres e homens...

Brigas de cachorro, uma criança cai de uma palmeira e se machuca, uma mãe fica braba com o filho, os rapazes fazem piadas com algum fato novo, ouvem música no celular... Quando o Helio liga o computador para descarregar as imagens gravadas um bando de rapazes o cercam, curiosos e interessados...

Entre visitas às casas e conversas para atualizar os assuntos, faço entrevistas com jovens, com algumas mulheres e com Paulo Supretaprã para o programa Aldeias Sonoras.

  

Chega a manhã de nossa partida. Um nó atravessa a garganta, como a gravata tradicional dos Xavante, só que lá dentro, dificultando a respiração. Quantas vezes senti isso!!!! Mais uma despedida.

Levamos conosco além de uma caminhonete cheia de gente que aproveita a carona para ir para a cidade, algumas imagens gravadas pelas câmeras, muitas imagens gravadas na memória, reflexões e dúvidas sobre o futuro do povo, a tristeza pela partida eminente dos mais velhos. E a vontade de fazer algo que contribua para que as pessoas conheçam um pouco mais sobre a cultura Xavante e passem a respeitá-los.

Mas esta era só a primeira parte da viagem...

 


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15/05/2012 às 19:55:11

A caminho de Etenhiritipá

Diários de Viagem 
 
Começamos aqui a publicar trechos do diário de viagem que a equipe do Aldeias Sonoras realizou para as aldeias Etenhiritipá, do povo Xavante, e Uiaipiuko, do povo Mehinako, no Estado do Mato Grosso, em maio de 2012.

Capítulo 1 – De São Paulo a Canarana
 
O primeiro trecho da viagem é o mais trivial e  mais estressante: falta de táxi numa tarde chuvosa de São Paulo, trânsito pesado, filas no aeroporto, voo atrasado, mudança de portão de embarque... Rotina de paulistano! Sem novidades.
 
Eu, Angela Pappiani, começava, juntamente com meus amigos Helio Nobre, que fez a documentação em foto e vídeo da viagem, e Eliza Otsuka, companheira de muitas aventuras indígenas no Brasil e do outro lado do mundo, nossa viagem para as aldeias Xavante e Mehinako para levar a notícia do programa Aldeias Sonoras e gravar entrevistas.
 
A emoção e a adrenalina da viagem começam na rodoviária de Goiânia. Um shopping center lotado de consumidores confundindo-se com viajantes numa quase véspera de feriado. Conseguimos comprar as últimas três passagens num ônibus extra para Canarana, cidade no Mato Grosso, distante cerca de mil quilômetros dali.
 
Hoje os ônibus são confortáveis e a estrada totalmente asfaltada. Quando fiz essa viagem pela primeira vez, por terra desde São Paulo, no final de década de 80, a coisa era bem diferente... De Goiânia até a aldeia Xavante de Pimentel Barbosa, nosso destino agora, foram mais de 2 dias de aventuras por estradas de terra esburacadas, enfrentando poeira e o sentimento de ódio misturado com medo da população  do sul do pais, em sua maioria gaúcha e catarinense, que ocupou o centro oeste, em relação aos povos indígenas. 
 
Em algumas paradas na beira das estradas e em pequenos hotéis da região havia cartazes manuscritos à porta onde se lia “proibido entrada de índios”. Eu, que viajava com um marido indígena e minhas filhas mestiças, sofria na carne a mesma violência. Naquela época não havia uma lei específica contra o preconceito e mesmo que houvesse, nesses lugares não há lei.
 
Mas voltando à nossa viagem de agora, em maio de 2012, o progresso que destruiu o cerrado e a mata levou também ao centro oeste energia, internet, celulares, hotéis, restaurantes, lojas que prosperam graças, inclusive, aos consumidores indígenas. 
 
O preconceito existe ainda, mas não é explícito. O medo e o nojo aos indígenas convive com o lucro que eles geram. Exceções existem. 
 
Chegamos a Canarana quase ao meio dia de uma sexta feira e meu amigo Paulo Supretaprã Xavante nos esperava na rodoviária. Depois de um almoço e de uma parada no supermercado para nos abastecer para os três dias de aldeia, fizemos o próximo trecho de viagem, de cerca de três horas e meia, numa caminhonete fretada na cidade.
 
 Fotos de Helio Nobre:
 
 Aldeia Etenhiritipá, Terra Indígena Rio das Mortes
          
 
       
 


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