Espaço aberto para novos conteúdos: comentários, vídeos, fotos, desenhos, artigos sobre o que acontece no Brasil e no mundo em relação aos povos indígenas e às culturas tradicionais.
Participe! Mande sua contribuição!

24/04/2013 às 18:10:02

Conhecimento tradicional

Projeto revela relação indígena com o conhecimento

Indígenas da Escola Baniwa participantes de um projeto de piscicultura na região noroeste da Amazônia, além de aprenderem as técnicas, conseguiram desenvolver métodos de reprodução mais eficientes. O Projeto de Piscicultura no alto Rio Negro tinha como meta garantir a segurança alimentar. Mas, a relação dos Baniwa com os peixes de cativeiro resultaram em laços que evitaram o seu consumo. “O projeto gerou um efeito diferente do esperado, tornou mais claras algumas ideias indígenas a respeito dos peixes e a relação que esses povos estabelecem com o conhecimento”, afirma a antropóloga Milena Estorniolo.

Ela conta que a ideia de troca de perspectivas é comum entre os índios do projeto. “A partir dela, os peixes são equiparados a seres humanos, capazes de formar uma sociedade complexa”, descreve Milena, ressaltando que “o controle da quantidade de animais caçados e pescados estaria baseado no temor e no respeito, mais do que em uma propensão natural em proteger a natureza”.

No estudo de mestrado Laboratórios na floresta. Os Baniwa, os peixes e a piscicultura no alto rio Negro, desenvolvido na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a antropóloga acompanhou, em 2011, as atividades de piscicultura na Escola Indígena Baniwa e Coripaco Pamáali, sendo que a pesquisa completa se desenvolveu entre 2010 e 2012.

O Projeto de Piscicultura no alto Rio Negro, localizado no noroeste Amazônico, surgiu a partir de uma parceria entre a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e o Instituto Socioambiental (ISA), uma ONG brasileira que trabalha, entre outros aspectos, as relações entre os povos indígenas e o meio ambiente. O projeto foi proposto em 1998, após a demarcação da Terra Indígena Alto Rio Negro, com o objetivo de reduzir uma escassez de peixes que os índios da região vinham alegando há alguns anos.

A ideia foi tornar os indígenas responsáveis por três estações de piscicultura, onde se tornaram técnicos e estavam encarregados de cuidar dos peixes, desde a sua alimentação e reprodução em cativeiro, até a distribuição para aldeias, famílias e escolas.

Na região, a pesca (assim como os rios e peixes) tem papel principal na cultura, não apenas como forma obtenção de alimentos, mas também em aspectos sociais. “Os rios e os peixes podem nos ajudar a compreender as relações que os indígenas estabelecem com os animais e com o que nós chamamos de natureza, que para eles têm um significado completamente diferente”, explica Milena.

Os mitos e as conquistas

Para os indígenas, os peixes seriam semelhantes aos humanos, capazes de constituírem uma sociedade complexa, como a que vivemos. Para eles, os animais e plantas enxergam a si mesmos como seres humanos e enxergam os seres humanos como animais ou espíritos.

“Essa possibilidade de troca de perspectivas é algo muito elaborado e difundido no pensamento indígena, e foi batizado pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro de perspectivismo ameríndio, ideia que nos ajuda a entender as relações entre os índios do alto rio Negro e os peixes.”

Os Baniwa são cuidadosos com a atividade da pesca visando evitar a ira das grandes serpentes, para eles, as responsáveis por dar a vida aos peixes. Muitos deles afirmam que os animais criados em cativeiro não são iguais aos dos rios e há, até mesmo, piscicultores que evitam matar e comer os peixes que eles mesmos criaram por possuírem laços afetivos com os animais.

Algumas lideranças dos Baniwa defendem que o projeto foi um sucesso, mesmo que ele tenha passado longe de abastecer as pessoas das aldeias da região: “Os indígenas estão mais interessados em domesticar os nossos saberes e conhecimentos do que em domesticar os próprios peixes”, diz a antropóloga. “Além de não pensarem que estão sofrendo de problemas de ‘segurança alimentar’, querem nos mostrar que são tão capazes quanto nós de lidar com as tecnologias e conhecimentos científicos”. As técnicas desenvolvidas pelos indígenas passaram a ser a utilizadas pelas outras estações.

A aquisição de novas técnicas não levou a uma substituição ou a perda dos costumes indígenas. Ao contrário, a ciência acabou por se encaixar no sistema de conhecimento indígena e atuar em conjunto para uma melhor adaptação na piscicultura, no caso estudado.

Fonte: Agência Usp


(2) COMENTE ESTE POST






24/04/2013 às 10:50:30

Awá-guajá - um povo ameaçado

O povo Awá-guajá, com apenas 400 indivíduos, é um dos povos mais ameaçados do planeta. Veja matéria no link abaixo 

 

amazonia.org.br/2013/04/a-morte-e-a-morte-dos-awá-guajá/


(0) COMENTE ESTE POST






15/04/2013 às 18:07:36

Almir Suruí é herói da floresta

 Almir Suruí, líder indígena de Rondônia, foi eleito pela ONU um dos cinco salvadores das florestas do mundo no ano de 2012. A homenagem faz parte do Programa Heróis da Floresta, que seleciona pessoas de todos os cantos do planeta que trabalham de forma heroica para proteger e gerir as matas.

Vencedor pela América Latina e Caribe, o líder dos índios Paiter-Suruí é famoso por criar iniciativas que visam proteger a floresta e incentivar o desenvolvimento sustentável na Terra Indígena Sete de Setembro, onde vive. Entre elas, o projeto Carbono Suruí, consagrado como a primeira ação indígena de REDD+ do Brasil, e o projeto que desenvolveu em parceria com o Google para utilizar o Google Earth como ferramenta de combate ao desmatamento da Amazônia.

Os outros quatro eleitos como Heróis da Floresta pela ONU são:
- Rose Mukankomeje, de Ruanda (África);
- Preecha Siri, da Tailândia (Ásia);
- Hayrettin Karaca, da Turquia (Europa) e
- Ariel Lugo, dos EUA (América do Norte).

A cerimônia de entrega do prêmio Heróis da Floresta aconteceu no dia 11 de abril, durante a décima edição do Fórum das Nações Unidas sobre Florestas (UNFF), em Istambul. No ano passado, o Brasil também estava entre os ganhadores da iniciativa: Paulo Adario, diretor da Campanha da Amazônia do Greenpeace-Brasil, recebeu o prêmio. A ONU ainda fez uma homenagem póstuma ao casal de extrativistas José Cláudio da Silva e Maria do Espírito Santo, que foi assassinado em 2011, no Pará, depois de receber ameaças de morte por conta do trabalho de proteção à floresta que realizava na região.


(0) COMENTE ESTE POST






15/04/2013 às 18:01:05

linguas indígenas e a tecnologia


Projeto usa smartphone para preservar línguas indígenas


Software desenvolvido por australiano possibilita que línguas de comunidades remanescentes possam ser ouvidas, compreendidas e aprendidas por gerações futuras. No Brasil, 190 estão ameaçadas de desaparecer.
No meio da floresta amazônica brasileira, telefones celulares estão sendo usados para coletar histórias da literatura oral. O objetivo da expedição é preservar o patrimônio linguístico de comunidades indígenas que correm o risco de desaparecer sem deixar qualquer vestígio.
"Muitas pessoas acreditam que as novas tecnologias estão acabando com a cultura tradicional. Nós tentamos encontrar caminhos para usar essa tecnologia como incentivo para preservar as tradições", conta à DW Brasil o australiano Steven Bird, professor da Universidade de Melbourne e que está à frente do projeto.
A ideia é simples. Bird e sua equipe desenvolveram um software de fácil manejo batizado de Aikuma, que permite aos falantes gravar e traduzir sua língua. O aplicativo não utiliza a escrita e funciona com ícones. "Nós achávamos que seria fácil desenvolver a tecnologia, mas descobrimos que era muito difícil. Pois os aplicativos trabalham com a escrita, e não poderíamos ter sete mil versões [número de línguas faladas no mundo]. Além disso, muitas dessas línguas não têm um sistema de escrita", diz Bird.
Para a Amazônia, Bird levou 15 smartphones. Após gravar as histórias antigas e tradicionais, o aplicativo compartilha o conteúdo com os outros telefones da rede. Com o áudio disponível em todos os celulares, ele poderá então ser adaptado para o português por qualquer pessoa conectada à rede. A tradução é feita frase por frase. No final do processo, um CD será gravado com a história e a tradução.
No futuro, além de estar preservada, essa língua poderá ser aprendida – muitas delas ainda não possuem um sistema de escrita, mas as gravações ajudarão a desenvolvê-lo e a criar dicionários e gramáticas. "Agora, como o trabalho é muito urgente, precisamos focar nas gravações", afirma.
Línguas da Amazônia
O australiano ficará dois meses na Amazônia e visitará três comunidades indígenas, que falam tembé, nhengatu e ticuna. O professor já esteve na aldeia de Tembé, onde há apenas 150 falantes dessa língua. Bird conta que as crianças não aprendem mais tembé. "Talvez, em 40 anos, ela não será mais falada", estima.
Apesar de o software ser de fácil uso, o líder do projeto ainda enfrenta algumas barreiras. "O maior desafio é encontrar pessoas que conheçam as histórias antigas e tradicionais," explica o professor. No caso dos tembés, as histórias e traduções já gravadas em CD poderão reverter esse quadro. Em cada língua, são gravadas aproximadamente 20 ou 30 histórias. "Deixamos esses CDs nas aldeias para que as crianças os escutem e aprendam o idioma nas escolas."
Risco de desaparecer
O Brasil ainda possuí diversidade linguística. O Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que existem 274 línguas indígenas faladas no país, embora praticadas por um número cada vez menor de pessoas.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), no Brasil 190 idiomas correm o risco de desaparecer. O país é o terceiro do mundo em número de línguas ameaçadas, atrás da Índia e dos Estados Unidos. O órgão destaca também que mais de 2.500 línguas no planeta estão ameaçados de extinção e que, nos últimos anos, 231 já desapareceram.
Para evitar que parte da tradição indígena no Brasil se perca, Bird vai visitar universidades no país. O australiano quer compartilhar a experiência com o Aikuma e explicar para linguistas e antropólogos como funciona o software. Com financiamento dos governos australiano e americano, Bird quer expandir o uso do aplicativo: "Perder uma língua é como perder uma biblioteca. Toda uma coleção de conhecimento e informações sobre o mundo é perdida para sempre."


(0) COMENTE ESTE POST